Saiba como praticar a paternidade ativa e ser um pai mais presente
agosto 10, 2021

Saiba como praticar a paternidade ativa e ser um pai mais presente

por Equipe Linus

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Ser pai exige responsabilidade, e todo o mundo sabe disso. Porém, nem sempre fica claro para alguns pais. Tem gente que não se responsabiliza mesmo e tem gente que não tem uma ideia muito clara de qual é o seu papel. Então, que tal ler sobre este assunto e entender quais são as responsabilidades de um pai no desenvolvimento afetivo, emocional e intelectual dos filhos?

A cultura do pai tradicional

Para entendermos o papel que os pais desempenham dentro da estrutura familiar hoje, precisamos primeiro voltar às raízes e saber como culturalmente e socialmente os pais atuavam em outras sociedades. Nas civilizações antigas, os homens ocupavam uma posição superior (legalmente, culturalmente e politicamente) a de mulheres e eram o centro da instituição familiar. Ou seja, para que existisse uma família, para que um grupo de pessoas fosse considerado “uma família”, era necessário que ali existisse um homem, como figura principal, que tivesse poderes sobre todos os outros integrantes. E esses deveriam cumprir suas ordens, obedecer sem questionar suas demandas e honrá-lo sob todas as condições. O poder do pai era absoluto e inquestionável. Ele dominava sua ou suas esposas, seus filhos e seus escravos. As mulheres, esposas ou filhas eram consideradas pessoas de menor valor social.

O papel masculino dentro de culturas religiosas

O gênero masculino também desempenha um papel fundamental dentro das religiões. Na maioria dos casos, mesmo quando elas não se consideram religiões patriarcais, os homens detêm a maioria das funções de autoridade e prestígio nas organizações. Dentro do poder que essas funções concedem, os homens controlam, através de leis, tradições e normas, como as mulheres devem se portar e como devem desempenhar seu papel dentro de cada estrutura.

A tradição judaico-cristã influenciou muito a construção do mundo ocidental que vivemos e a concepção do que acreditamos ser o papel dos pais hoje. Uma das maneiras que as culturas judaico-cristãs se referem a Deus é “o Pai”, aquele que é responsável pela vida de todos, aquele que deve ser respeitado e temido. Aquele que seus discípulos devem se espelhar e obedecer, que não deve ser contestado. Esse conceito permite que Deus, ou o Pai, tenha o direito de punir as pessoas pelos seus pecados.

Já no Islamismo, embora Deus não seja representado como sendo o pai, Alá, no alcorão, livro sagrado do Islã, é apresentado pelo profeta Maomé com pronomes masculinos: “Aquele que é Deus no céu e Deus na terra; Ele é o Onisciente, o Sapientíssimo” (43:84). Alá carrega consigo as seguintes posições: promover, educar, nutrir; guardião, aquele que supervisiona; líder, chefe e senhor. O soberano. Como vemos, a maioria das doutrinas religiosas tem imagens de Deus com predominância masculina. Esses conceitos ainda têm impactos muito importantes no papel e na imagem do pai na família e na sociedade.

O papel do homem na cultura familiar contemporânea brasileira

Embora muita água tenha passado por baixo da ponte, infelizmente não podemos dizer que a cultural patriarcal de origem religiosa, trazida pelos colonizadores, deixou de fazer parte da cultura brasileira. Muito pelo contrário, segundo uma pesquisa feita pelo Instituto Promundo em 2019, o Brasil é um dos países cujas leis estimulam menos o envolvimento dos pais na educação dos filhos. Mas nem tudo está perdido. 85% dos pais entrevistados dizem que faria qualquer coisa para participar mais ativamente da educação dos filhos. Os três principais motivos que o Instituto Promundo aponta para que os pais e as mães não desempenhem um papel igualitário na educação dos filhos são:

  1. Falta de licença paternidade paga e adequada e o baixo uso dela quando disponível;
  2. Normas de gênero restritivas que posicionam o cuidado como responsabilidade das mulheres, juntamente com a percepção de que as mulheres são cuidadoras mais competentes do que os homens;
  3. Falta de segurança econômica e apoio governamental.

Seja a falta de leis que incentivem os pais a participarem ativamente da educação dos filhos, seja a cultura patriarcal na qual fomos constituídos, a questão é que, mesmo que existam dificuldade, nada mais justifica os 5,5 milhões de crianças no Brasil sem o nome dos pais na certidão de nascimento. Para mudar isso, precisamos falar sobre a masculinidade tóxica e como o machismo domina as estruturas familiares até hoje.

O machismo dentro da estrutura familiar

O lar é o primeiro lugar que as crianças são socializadas e onde os primeiros estereótipos e valores de gênero são ensinados. Em muitas famílias, ainda mesmo antes do bebê nascer, de acordo com o seu sexo, os pais já começam a planejar o papel que ele desempenhará, como será tratado, qual comportamento deverá seguir, que brinquedos terá que gostar de brincar, quais serão suas cores favoritas. Tudo isso de acordo com os estereótipos de gênero dominantes na sociedade.

Alguns estudos apontam que o conhecimento individual do gênero se dá a partir da maneira que os indivíduos são tratados pelos outros. Na maioria das vezes, a partir de nove meses de idade, crianças já conseguem se diferenciar das outras de acordo com cores, brinquedos, habilidades e interesses que foram impostos a elas. Esses diferentes papéis tão cedo atribuídos, que podem inicialmente parecer inofensivos, acabam por se tornar um fundamento lógico inquestionável para muitas ideias do que devem ser os futuros homens e mulheres. Por exemplo, na maioria das sociedades espera-se que as mulheres se comportem de maneira submissa, dependentes emocional e economicamente, enquanto se espera que os homens sejam fortes, independentes e combativos. O grande problema de todas essas normas e expectativas é que elas acabam sendo prejudiciais a todos, limitando as pessoas a exercerem outros papéis e de ocuparem outros espaços que não aquele julgado aceitável para o seu gênero.

Como consequência, meninas e mulheres experienciam violência, assédio e precisam lutar (quando possível) por oportunidades, salários e leis igualitárias. Do outro lado, meninos e homens experienciam maiores taxas de abuso de substâncias tóxicas, suicídios e se tornam pessoas mais violentas, que não sabem lidar com emoções ou desempenhar papéis de cuidado, o que resulta no distanciamento deles com a paternidade.

Expressões como “agir como homem” e “homens não choram”, muito faladas durante a educação dos meninos, trespassam a infância e acompanham até a vida adulta. E com o tempo eles aprendem a desligar suas emoções e não aprendem a lidar com seus sentimentos. Isso cria um ciclo de masculinidade tóxica, muito difícil de ser revertido.

Como a masculinidade tóxica machuca os homens e que impacto ela tem na paternidade?

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A expressão “masculinidade tóxica” vem sendo muito usada nos últimos tempos. Ela diz respeito a um conjunto de comportamentos ou atitudes associadas aos homens que são não só prejudiciais para quem convive com eles, como para eles mesmos. Em outras palavras, masculinidade tóxica é o que na maioria dos casos resulta da educação de meninos, em que eles não podem expressar emoções abertamente, onde qualquer mínima demonstração de fragilidade são associadas ao universo feminino ou a fraqueza.

De acordo com a A.P.A (American Psychological Association), esse tipo de educação cultural está associada a futuros comportamentos agressivos e violentos, resultando em um maior número de homens em prisões, uma maior probabilidade de cometer crimes violentos e de serem vítimas de crimes.

Se a premissa da masculinidade tóxica é esconder qualquer traço de vulnerabilidade, isso se reverte em uma impossibilidade de que haja a aproximação ideal entre os homens e as crianças, fazendo com que grande parte dos pais não consiga criar laços com seus filhos. E essa falta de afetividade se torna muito prejudicial ao formar outros homens também com dificuldade de lidar com emoções, tornando o círculo vicioso e infindável. Também as meninas sofrem com isso, ao aprender que os homens devem ou podem ser violentos, o que normaliza situações de abuso e violência que elas sofrem até a vida adulta.

A cultura do abandono paterno no Brasil

No Brasil, os sinais da sociedade machista e patriarcal resultam também em um grande índice de abandono paterno. A ideia de que as mulheres cuidam melhor dos filhos cria as desculpas para que diversos pais deixem de estar presentes na educação das crianças, por vezes abandonando-as completamente. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça, existem alguns tipos de abandono paterno, sendo que eles devem ser observados para que haja também a possibilidade de reparação por parte da justiça, tanto para garantir o direito dos filhos quanto das mães.

Tipos de abandono paterno

Veja aqui alguns tipos de abandono paterno, que estão presentes em vários ambientes e você com certeza já viu, presenciou ou até mesmo sofreu pessoalmente:

Abandono material

O artigo 244 do Código Penal estabelece que o abandono material acontece quando se deixa de prover, sem justa causa, a subsistência do filho menor de 18 anos, não proporcionando os recursos necessários ou deixando de pagar a pensão alimentícia acordada na Justiça ou, ainda, deixando de socorrê-lo em uma enfermidade grave. A pena para este crime é de um a quatro anos de detenção, além de multa fixada entre um e dez salários mínimos.

Abandono intelectual

O abandono intelectual ocorre quando a educação primária do filho não é garantida sem justa causa. O objetivo da norma é garantir que toda criança tenha direito à educação, evitando a evasão escolar. Dessa forma, os pais têm a obrigação de assegurar a permanência dos filhos na escola dos 4 aos 17 anos. A pena fixada para esta situação é de quinze dias a um mês de reclusão, além de multa. Outra forma de abandono intelectual é permitir que um menor frequente casas de jogo ou conviva com pessoa viciosa ou de má-vida, frequente espetáculo capaz de pervertê-lo, resida ou trabalhe em casa de prostituição, mendigue ou sirva de mendigo para excitar a comiseração pública.

Abandono afetivo

Há ainda o caso do abandono afetivo, que pode ser constatado quando é caracterizada a indiferença afetiva em relação a seus filhos, ainda que não exista abandono material e intelectual. Nos últimos anos, a Justiça tem observado e definido indenizações para casos em que isso ocorre.

O pai ausente e os impactos sociais no indivíduo

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Alguns dados são importantes para entender os efeitos da ausência dos pais na vida dos filhos. Segundo um estudo norte-americano, liderado pela The Fatherhood Project, os filhos que não têm proximidade com o pai têm duas vezes mais chances de não conseguirem entrar na faculdade ou não encontrar um emprego estável após o Ensino Médio. Também os filhos de pais ausentes têm duas vezes mais probabilidade de serem pais na adolescência, além de ter maior probabilidade de ir para a prisão. E mais ainda: eles têm o dobro de chance de ter sintomas de depressão durante a vida adulta. Por isso, é importante lembrar sempre que os pais desempenham um papel crítico no desenvolvimento infantil. A ausência do pai impede o desenvolvimento desde a primeira infância até a idade adulta. O dano psicológico da ausência do pai vivenciado durante a infância persiste ao longo da vida.

Paternidade ativa e a nova masculinidade

Atualmente, com diversas discussões sobre o papel dos homens nas famílias, desenvolveu-se conhecimentos sobre a importância da paternidade ativa. Ela é a participação dos pais como agentes fundamentais no desenvolvimento dos filhos, não como auxiliares das mães, mas com a mesma importância delas. E isso resulta em novas formas de educação, pois sabemos que pais presentes no desenvolvimento e na afetividade fazem com que seus filhos sejam muito mais saudáveis mentalmente e mesmo fisicamente. Isso, com certeza, é resultado de uma nova forma de viver a masculinidade, colocando de lado muitos dos componentes e dos comportamentos que caracterizavam os homens de tempos atrás. A sensibilidade, o cuidado, a atenção, o afeto e o carinho precisam fazer parte do que podemos chamar de nova masculinidade.

Então, qual a importância da paternidade ativa para a sociedade?

Vários exemplos no mundo dão conta de que pais presentes são importantes para as crianças, mas também para a sociedade. Afinal, pessoas saudáveis e com menos problemas psiquiátricos resultam em uma sociedade mais pacífica, menores necessidades de investimento em saúde e maior produtividade nos ambientes de trabalho. Embora pareça estranha essa relação, mas é fato: a paternidade ativa tem um impacto econômico na sociedade. Por isso, tanto governos quanto empresas têm investido no processo de divulgação e de educação sobre esse tema.

Cartilha sobre paternidade ativa do Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde também desenvolveu um conteúdo importante para influenciar os pais a exercerem a paternidade ativa. Conheça o material e envie para os homens que podem se beneficiar com as informações. E, mesmo que você já saiba muito sobre o tema, essa cartilha é interessante para retomar algumas discussões e comportamentos fundamentais na relação entre pais e filhos.

A importância da paternidade ativa no desenvolvimento infantil

A paternidade ativa faz com que os pais sejam também muito próximos aos filhos desde que são bebês. E isso quer dizer que pais e bebês podem ser tão apegados quanto mães e bebês. Quando ambos os pais estão envolvidos com a criança, os bebês se aproximam de ambos desde o início da vida. E há evidências de que o envolvimento do pai está relacionado a resultados positivos de saúde infantil em bebês, como aumento de peso em prematuros e melhores taxas de amamentação. Por isso, os pais também podem ter um envolvimento usando uma paternidade com autoridade amorosa, com limites e expectativas claras, e isso leva a melhores resultados emocionais, acadêmicos, sociais e comportamentais para os filhos. Para se inspirar, que tal ver o vídeo que o ator Lázaro Ramos fez sobre esse tema e como ele se sente desenvolvendo a paternidade ativa?

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Benefícios da paternidade ativa para você, pai!

Além de ser importante para o desenvolvimento das crianças, a paternidade ativa também é importante para os pais. Afinal, ao se verem com a responsabilidade de dividir a educação e o cuidado com os filhos, eles se cuidam mais. Veja o que ocorre com os pais que assumem a paternidade ativa:

  • Fazem mais atividade física;
  • Comem melhor;
  • Criam hábitos mais saudáveis;
  • Bebem menos;
  • Deixam de fumar;
  • Têm mais estabilidade no trabalho.

E isso ocorre porque, ao serem pais mais presentes, eles conseguem entender melhor os seus papéis em diversos outros ambientes sociais, além da necessidade de se manterem saudáveis.

Projeto de equidade de gênero por debates masculinos - MEMOH

Para que você também entenda o papel do homem na sociedade, nos relacionamentos e no cuidado com os filhos, alguns projetos são importantes e inspiradores. É o caso do MEMOH, que tem a intenção de desenvolver a equidade de gênero a partir da reflexão dos homens sobre seu modo de agir consigo mesmo, com os outros e com a sociedade em geral. E isso é feito através de Grupos Reflexivos, de Produção de Conteúdo e de Serviços de Consultoria voltados também para o ambiente corporativo. Isso, é claro, porque as empresas também passaram a entender que a discussão pode ser importante para elas, tanto como agentes da sociedade quanto na conquista de resultados econômicos mais expressivos.

Indicações de filme sobre paternidade

Também existem ótimas obras para assistir e entender como as relações entre pais e filhos são importantes tanto para os indivíduos quanto para toda a sociedade.

Documentário: O silêncio dos homens

Um documentário maravilhoso sobre as dores, as qualidades, as omissões e os processos de mudança dos homens. Ele é resultado de uma pesquisa com mais de 40.000 pessoas e de meses de gravações.

Documentário: The mask you live in - Netflix

Outro documentário importante para entender como a masculinidade tóxica é terrível para a vida dos meninos e consequentemente dos homens, em todos os seus papéis sociais, inclusive na paternidade.

Filme: Dads - Apple TV

Este é um ótimo filme para experimentar e compartilhar as experiências de ser pai atualmente, com tudo o que tem de bom, mas também com vários “perrengues”. Fundamental para encher de graça e humor momentos que às vezes parecem tão complicados e preocupantes.

Como desenvolver uma paternidade ativa? 10 dicas para te ajudar

Agora, você deve estar pensando: como desenvolver a paternidade ativa? Aqui vão 10 dicas para você começar, mas sempre tem muito mais para fazer:

  1. Respeite a mãe dos seus filhos
  2. Destine tempo para os seus filhos
  3. Ouça primeiro, fale depois
  4. Discipline com amor
  5. Seja o exemplo
  6. Seja um professor
  7. Faça refeições com a família
  8. Leia com os seus filhos
  9. Demonstre afeto
  10. Entenda que o seu trabalho nunca está completo

E, claro, fale sobre isso com outros pais e ajudem-se sempre a ser pais melhores.

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Então, agora que você já viu como a paternidade é importante no desenvolvimento das crianças e da sociedade, que tal rever suas atitudes? Ou ainda, que tal conversar com os pais que você conhece para influenciá-los a serem mais presentes e responsáveis?

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