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fevereiro 24, 2022

Como o autocuidado afeta o coletivo?

por Colunista convidada: Ananda Cerqueira

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Vivemos tempos efêmeros, onde tudo é para ontem.

Ao mesmo tempo em que precisamos equilibrar os pratinhos da nossa vida pessoal e profissional, somos pressionados por crises que afetam não só a nossa vida, mas todo o planeta: crise climática, econômica, social e política.

Os impactos da pandemia deixaram marcas profundas, e o cenário de caos fez os níveis de ansiedade dispararem, e a busca pelo “autocuidado” teve crescimento igualmente proporcional.

Segundo pesquisa realizada pelo Twitter e Black Swan Data, desde o início da pandemia foi observado um aumento de 47% em conversas sobre bem-estar e 39% sobre saúde mental, além de um crescimento de 20% em menções à palavra "autocuidado".

Nesta publicação falamos sobre autocuidado e a importância do coletivo, confira: 

Mas, afinal, o que é autocuidado?

A essa altura, essa explicação pode parecer óbvia, mas trago aqui uma noção diferente sobre esse termo.

Muito além do skincare, o autocuidado é um conceito estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o direito de poder promover e manter a própria saúde, prevenir e lidar com doenças, com ou sem o apoio de um profissional. É também ter acesso à informação e gozar de autonomia para fazer escolhas para o próprio bem-estar.

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Autocuidado é também um termo feminista antirracista, que ganhou visibilidade com o movimento negro dos anos 1980. O termo “auto” pode até dar a impressão de que se trata de uma ação individual, mas o conceito de autocuidado é coletivo e político.

Afinal, a raiz da maioria dos problemas que tiram a nossa paz no dia-a-dia são de ordem social, política e econômica, e isso ultrapassa os cuidados individuais que podemos ter com nós mesmos.

Audre Lorde, mulher negra, feminista e lésbica, foi uma das grandes difusoras do termo. Ela escreveu sobre autocuidado enquanto enfrentava um câncer, e defendia que o cuidado de si é uma forma de autopreservação e, portanto, um ato de guerra política.

Autocuidado e capitalismo

Mas, o autocuidado é um termo que vem sendo sistematicamente incorporado pela lógica capitalista. Depois da pandemia, os anúncios de cremes, roupas, vibradores, viagens e outros serviços vêm sempre conectados a um imaginário de autocuidado. Mas, quem realmente ganha com isso?

De acordo com a consultoria Market Research, o setor do aperfeiçoamento pessoal movimentou US$ 9,9 bilhões em 2016 e deverá chegar aos US$ 13,2 bilhões em 2022. Segundo a pesquisa “Feeling Good”, da McKinsey, o mercado de Wellness entra em 75% nas prioridades da população brasileira, que vem gastando em média R$ 1.200 por ano com bem-estar.

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Enquanto o Brasil voltou para o mapa da fome e a fila de pessoas nos açougues para doação de ossos aumenta, nos limitar a uma conversa sobre cuidados individuais é, no mínimo, insuficiente.

Essa não é uma conversa sobre demonização do consumo e do skincare. É claro que precisamos nos cuidar e adotar pequenas práticas diárias, se isso estiver dentro das nossas possibilidades e, de fato, oferecer um conforto em meio ao caos. Essa é uma conversa sobre a importância do coletivo.

Precisamos expandir o nosso olhar sobre as armadilhas do consumo desenfreado dos produtos e serviços de autocuidado: será que essa é mesmo uma necessidade nossa? De onde ela surgiu? A quem ela serve? Esse consumo realmente traz bem-estar ou nos fizeram acreditar que é disso que se trata estar bem? Quais são os impactos financeiros e psicológicos dessa necessidade criada?

Caindo no extremo oposto: a “Síndrome do Bem-Estar”

Hoje vemos um fenômeno chamado ‘síndrome do bem-estar’ (wellness syndrome) - um foco pouco saudável no aperfeiçoamento e que causa o efeito oposto: diminui a autoestima e aumenta o sentimento de inadequação. Grande parte da sociedade é vítima dessa síndrome explicada no livro “The Wellness Syndrome”, de Carl Cederström e Andre Spicer.

Segundo eles, os sintomas dessa pressão pelo bem-estar a todo custo aparecem, por exemplo, ao sentir culpa por não fazer exercícios todos os dias, contar as calorias de cada alimento e se sentir mal por sair da dieta, calcular as horas de sono todas as noites, e por aí vai. Quem nunca?

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A questão é que esse culto ao autocuidado traz mais prejuízos à saúde e ansiedade do que bem-estar, e os autores comentam como os debates políticos e os desejos de mudança social foram substituídos por esses sonhos de transformação individual.

O que esperar do futuro?

Segundo a consultoria WGSN, três sentimentos vão pautar o comportamento das pessoas num futuro próximo: medo, eco-ansiedade e incerteza econômica. Isso não surpreende muito, diante do cenário que estamos enfrentando.

A novidade é que os millenials e a geração X já estão começando a entender os prejuízos da chamada “produtividade tóxica”, bem como a falácia do consumo do bem-estar.

O relatório aponta que, logo mais, um novo cenário irá se apresentar: as pessoas vão começar a priorizar a estabilidade em todos os aspectos da vida, deixando de lado o culto à produtividade e optando pela aceitação de que ninguém dá conta de tudo, e tudo bem. Ou seja, um novo momento se aproxima: o de desejar experimentar a vida como ela é. E por que não?

Como não cair na ilusão do bem-estar individual

Praticar o autocuidado é uma necessidade, não há dúvida. Dedicar um tempo a se conhecer, se amar, se cuidar, se preservar é necessário e cada dia mais urgente. E as maneiras de se amar e se cuidar também são pessoais, e tudo bem escolher o que te faz bem. O ponto de atenção aqui é estarmos vigilantes para notar como o sistema desvia o nosso olhar do que realmente importa.

Uma coisa é fato: tempo e dinheiro são recursos cada vez mais escassos. Imagina se, em vez de tentar otimizar todas as áreas da nossa vida, que são tantas, pudéssemos parar, refletir sobre nós mesmos, para identificar o que é realmente preciso melhorar, e dedicar nossos esforços ao que realmente é prioridade para sermos mais felizes e vivermos bem?

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E mais: e se a gente ampliasse o nosso olhar e começasse a pensar no bem estar coletivo como origem do bem estar individual? Afinal, é possível sentir plenitude no meio do caos? Será que sentir que ajudamos alguém ou alguma causa que acreditamos não nos traria mais felicidade e bem-estar?

Esqueça o que te disseram que é autocuidado. O que é bem estar para você? Este é um convite à reflexão.

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